sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

A influência da telenovela na realidade


Desde sua invenção no fim da década de 1940 e início da década de 1950, a televisão mudou os hábitos e costumes das pessoas. Trabalha com o espetáculo e desempenha três funções: informar, educar e entreter. Porém, com sua popularização, as duas funções primordiais da TV foram superadas pela função de entreter. Na busca de ampliar o mercado e atingir o maior público possível, o seu principal caminho tem sido o da ficção, com a teledramaturgia e seus formatos telenovela, minissérie e seriado.

A telenovela evoluiu conforme a modernização e as transformações sociais. Tornou-se um hábito na vida do brasileiro sentar-se em frente à televisão após o jantar para assistir à telenovela e, no dia seguinte, debater no trabalho sobre a atuação dos atores, o cenário, as roupas, o destino final das personagens, etc. Os telespectadores se identificam com o enredo e os personagens, que encenam experiências da vida real.
As telenovelas contemporâneas abordam temas sociais polêmicos e mesclam ficção com questões reais da sociedade brasileira. Assuntos como homossexualidade, corrupção, drogas, violência contra mulher, contra o idoso, alcoolismo, dentre outros, são interpretados e discutidos pelos personagens.
Mas existe influência da ficção retratada nas telenovelas na realidade das pessoas? O formato da teledramaturgia é um dos principais produtos da cultura popular da televisão brasileira e pertence a um universo de discussão e introdução de hábitos e valores. A telenovela influencia e é influenciado pelos telespectadores, que participam ativamente no processo de recepção. Eles questionam e discutem os assuntos apresentados na trama, muitas vezes até interferem em determinado percurso de um personagem ou no desenrolar dos capítulos. Nesse sentido, a novela deve ser vista como parte da experiência cultural da coletividade.
De acordo com Figueiredo, ao penetrar o cotidiano do telespectador, a telenovela estabelece relações estreitas e contínuas com seu público. Segundo a autora, o formato da teledramaturgia brasileira procura incluir no seu texto fatos mais significativos para a sociedade, tomando para si não só o papel informativo do jornal, mas também o interpretativo, uma vez que julga o fato através da (re)ação de suas personagens.
Na teoria crítica da Indústria Cultural, a cultura é vista como mercadoria e existe uma estandardização, ou seja, uma padronização de comportamentos, não de modificação. Percebe-se na telenovela a aplicação de pressupostos teóricos dos Estudos Culturais, que apontam possibilidades de transformação. A perspectiva dos Estudos Culturais segundo Wolf, tem como foco analisar uma forma específica de processo social, que dá contornos e sentido à realidade (WOLF, 2005, p. 102). Por esta visão de mundo, existe estreita relação entre a cultura contemporânea, a popular e a sociedade em suas formas culturais.
A telenovela é provocadora de debates e favorece a incorporação, apropriação e adaptação de novas demandas culturais e sociais. E contribui para que a cultura esteja em constante movimento de produção, reprodução e transformação, assim como sugere o modelo teórico proposto pelos Estudos Culturais.
Percebe-se, desta forma, que a novela exerce o poder de informar e entreter. O fato dos autores buscarem assuntos populares se encaixa na teoria dos Estudos Culturais, que, ao contrário da teoria da Indústria Cultural, acredita na emancipação e que não existe plena manipulação dos meios de comunicação. De acordo com Wolf, os Estudos Culturais atribuem à cultura um papel que não é meramente reflexivo nem residual em relação às determinações da esfera econômica (WOLF, 2005, p. 103).
Pode-se concluir que pressupostos teóricos da Indústria Cultural e dos Estudos Culturais se encaixam na telenovela. Talvez um modelo de interpretação ideal para a telenovela seja a teoria da Agenda Setting, que nega a manipulação como efeito comunicacional, mas diz ser função da mídia selecionar o que devemos discutir e debater. Enfim, no que pensar e não como pensar. 

REFERÊNCIAS

FIGUEIREDO, Ana Maria. A história da teledramaturgia e sua repercussão na teledramaturgia brasileira. IN: Teledramaturgia brasileira: arte ou espetáculo? São Paulo: Paulus, 2003.

_______. Os formatos da teledramaturgia. IN: Teledramaturgia brasileira: arte ou espetáculo? São Paulo: Paulus, 2003.

_______. Teledramaturgia nacional: as minisséries e os seriados. IN: Teledramaturgia brasileira: arte ou espetáculo? São Paulo: Paulus, 2003.

RÜDIGER, Francisco. A Escola de Frankfurt. IN: MARTINO, Luiz C (Org.). Teorias da Comunicação – Conceitos, Escolas e Tendências. Rio de Janeiro: Vozes, 2001.


WOLF, Mauro. Teorias da Comunicação. Lisboa: Presença, 1999.           

______. Teorias das Comunicações de Massa. Lisboa: Presença, 2005.


Nenhum comentário:

Postar um comentário