Desde sua
invenção no fim da década de 1940 e início da década de 1950, a televisão mudou os
hábitos e costumes das pessoas. Trabalha com o espetáculo e desempenha três
funções: informar, educar e entreter. Porém, com sua popularização, as duas
funções primordiais da TV foram superadas pela função de entreter. Na busca de
ampliar o mercado e atingir o maior público possível, o seu principal caminho
tem sido o da ficção, com a teledramaturgia e seus formatos telenovela,
minissérie e seriado.
A telenovela evoluiu conforme a modernização e as transformações sociais.
Tornou-se um hábito na vida do brasileiro
sentar-se em frente à televisão após o jantar para assistir à telenovela e, no
dia seguinte, debater no trabalho sobre a atuação dos atores, o cenário, as
roupas, o destino final das personagens, etc. Os telespectadores se identificam
com o enredo e os personagens, que encenam experiências da vida real.
As telenovelas contemporâneas abordam temas
sociais polêmicos e mesclam ficção com questões reais da sociedade brasileira.
Assuntos como homossexualidade, corrupção, drogas, violência contra mulher,
contra o idoso, alcoolismo, dentre outros, são interpretados e discutidos pelos
personagens.
Mas existe influência da ficção retratada
nas telenovelas na realidade das pessoas? O formato da teledramaturgia é
um dos principais produtos da cultura popular da televisão brasileira e
pertence a um universo de discussão e introdução de hábitos e valores. A
telenovela influencia e é influenciado pelos telespectadores, que participam
ativamente no processo de recepção. Eles questionam e discutem os assuntos
apresentados na trama, muitas vezes até interferem em determinado percurso de
um personagem ou no desenrolar dos capítulos. Nesse sentido, a novela deve ser
vista como parte da experiência cultural da coletividade.
De acordo com Figueiredo, ao penetrar o cotidiano do telespectador, a
telenovela estabelece relações estreitas e contínuas com seu público. Segundo a
autora, o formato da teledramaturgia brasileira procura incluir no seu texto
fatos mais significativos para a sociedade, tomando para si não só o papel
informativo do jornal, mas também o interpretativo, uma vez que julga o fato
através da (re)ação de suas personagens.
Na teoria crítica da Indústria Cultural, a cultura é vista como
mercadoria e existe uma estandardização, ou seja, uma padronização de
comportamentos, não de modificação. Percebe-se na telenovela a aplicação de
pressupostos teóricos dos Estudos Culturais, que apontam possibilidades de transformação.
A perspectiva dos Estudos Culturais segundo Wolf, tem como foco analisar uma
forma específica de processo social, que dá contornos e sentido à realidade
(WOLF, 2005, p. 102). Por esta visão de mundo, existe estreita relação entre a
cultura contemporânea, a popular e a sociedade em suas formas culturais.
A telenovela é provocadora de debates e favorece a incorporação,
apropriação e adaptação de novas demandas culturais e sociais. E contribui para
que a cultura esteja em constante movimento de produção, reprodução e
transformação, assim como sugere o modelo teórico proposto pelos Estudos
Culturais.
Percebe-se, desta forma, que a novela exerce o poder de informar e
entreter. O fato dos autores buscarem assuntos populares se encaixa na teoria
dos Estudos Culturais, que, ao contrário da teoria da Indústria Cultural, acredita
na emancipação e que não existe plena manipulação dos meios de comunicação. De
acordo com Wolf, os Estudos Culturais atribuem à cultura um papel que não é
meramente reflexivo nem residual em relação às determinações da esfera
econômica (WOLF, 2005, p. 103).
Pode-se concluir que pressupostos teóricos da Indústria Cultural e dos
Estudos Culturais se encaixam na telenovela. Talvez um modelo de interpretação
ideal para a telenovela seja a teoria da Agenda Setting, que nega a manipulação
como efeito comunicacional, mas diz ser função da mídia selecionar o que
devemos discutir e debater. Enfim, no que pensar e não como pensar.
REFERÊNCIAS
FIGUEIREDO, Ana Maria. A história da teledramaturgia
e sua repercussão na teledramaturgia brasileira. IN: Teledramaturgia brasileira: arte ou espetáculo? São Paulo: Paulus,
2003.
_______. Os formatos da teledramaturgia. IN: Teledramaturgia brasileira: arte ou
espetáculo? São Paulo: Paulus, 2003.
_______. Teledramaturgia nacional: as minisséries e os
seriados. IN: Teledramaturgia
brasileira: arte ou espetáculo? São Paulo: Paulus, 2003.
RÜDIGER, Francisco.
A Escola de Frankfurt. IN: MARTINO, Luiz C (Org.). Teorias da Comunicação – Conceitos, Escolas e Tendências. Rio de
Janeiro: Vozes, 2001.
WOLF,
Mauro. Teorias da Comunicação. Lisboa:
Presença, 1999.
______.
Teorias das Comunicações de Massa.
Lisboa: Presença, 2005.


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